RESENHA: A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS RESENHA: A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

RESENHA: A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS

Marlos Quintanilha



Pensa num livro difícil de ler. Agora multiplica por cem. Isso é um por cento do quanto vale a pena essa leitura. Depois dessa matemática desnecessária, vamos ao texto.

Lançado no Brasil em 2007, o livro de Makcus Zusak foi considerado um best-seller, chegando a ser adaptado nos cinemas anos depois. Na minha opinião, uma das melhores adaptações. Vale falar que o estúdio 20th Century Fox “roubou” duas páginas do jornal The New York Times para promover o lançamento do filme. A ação consistia na frase: “Imagine um mundo sem palavras.” 

Voltando ao livro, a capa brasileira pela editora Intrínseca já fornece ao leitor ares do quanto profunda é a história. O fundo branco, com uma árvore seca e a morte. A mistura densa dá um tom frio, necessário para começar uma história em plena Alemanha nazista na década de 40. 

Liesel Meminger é uma filha de mãe comunista perseguida que a vende para um casal de alemães, Hans e Rosa Hubermann.

A menina cruza com a morte pela primeira vez quando perde seu irmão caçula durante o percurso para Munique. Ali, a morte nota Liesel e passa a contar a sua história. Sim, a morte é a narradora do livro.

O início da história com termos alemães e informações de guerra talvez seja o entrave entre leitor e obra. Entretanto, não desista. Logo nas páginas a seguir somos arrebatados pelo encontro de Liesel e Hans. 

Pai e filha protagonizam momentos encantadores durante a construção da relação. Ele a ensina a ler. E daí ela sente-se compelida a mergulhar no mundo dos livros. E é apaixonando-se pela leitura que a menina transforma-se numa ladra de livros. Furtivamente ela invade a casa do prefeito da cidade para tomar algumas obras emprestadas, se assim podemos dizer.

Sempre na companhia de ser fiel amigo e admirador, Rudy. O menino sonha em ser corredor e nos dá lições de inocência e lealdade. A relação entre eles é de cão e gato. Sempre juntos e brigando.

Outros dois personagens são importantes na história. Rosa, a mãe adotiva de Liesel é amarga. Traz consigo as dores da guerra e as marcas do desgaste social. Mesmo iracunda, tem seus momentos fraternos com a menina. É aquele tipo de personagem rabugenta que se não está presente na história, faz falta. E ainda o judeu Max. Filho de um amigo de Hans, o jovem fica escondido no porão e logo cria laços com a família, especialmente com Liesel.

O livro narra a rotina da família no subúrbio alemão. E pela familiarização com a casa dos Hubermann nós encontramos várias características de nossas vidas com a ficção narrada. Isso nos envolve e nos conecta com cada um dos personagens. Fazemos da família de Liesel a nossa família. Isso é inegável. Quando a história acaba você sente aquele vazio. É como se um amigo querido tivesse ido embora.

E por fim, não menos importante. A morte, que narra a história, nos dá uma nova perspectiva sobre a própria. Nós, ocidentais, estamos acostumados com a morte representada por uma caveira. Algo ruim. Uma entidade que traz dor e sofrimento. E aqui o autor nos mostra a vida pela ótica da morte. Essa é sem dúvidas uma das experiências literárias mais profundas que vivenciei.

Pra encerrar meu texto, a minha relação com esse livro. Comprei em janeiro de 2010 e tentei ler por umas três vezes. Depois disso fiquei durante duas semanas no hospital com meu irmão. Li o livro exatamente nos dias que estive com ele. No dia em que acabei, ele faleceu. O texto na contra capa diz: ”Quando a morte conta uma história, você deve parar para ler.”


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